Chamada do Dossiê: Historiografia e Ensino de História

2020-08-15

CHAMADA DO DOSSIÊ: Historiografia e Ensino de História

Coordenadores

Maria Auxiliadora Schmidt (Universidade Federal do Paraná

Isabel Barca (Universidade do Porto)

Estevão de Rezende Martins (Prof. emérito – UnB)

 

Início do recebimento de artigos: 15 de agosto

Data limite para envio de artigos: 15 de outubro

 

O que faz um historiador quando ensina e pesquisa a História? Que referenciais  pressupostos e categorias fundamentam a aprendizagem e o ensino da História? Os princípios da aprendizagem histórica  são  os processos do desenvolvimento psicológico dos alunos ou categorias referenciadas no conhecimento histórico? A  Didática da História pertence ao campo dos estudos históricos ou somente da pedagogia?  Estas são algumas das questões que têm feito parte das complexas relações  entre a História e a Educação Histórica e, atualmente,  são objeto de debates de   historiadores no Brasil e em outros países. Com estas indagações, gostaríamos de convidar pesquisadores a submeterem seus trabalhos para o dossiê “ Historiografia e ensino de História”. Do ponto de vista do arcabouço teórico, subentende-se a opção e adesão aos fundamentos teóricos e filosóficos da ciência da História como referenciais para reflexões, investigações e debates, que caracterizam, de maneira diferenciada, a qualidade e a especificidade para um recorte diferenciado da produção no âmbito do Ensino de História. Assim pretende-se, com o Dossiê, reunir textos que sinalizem questões acerca da renovação que vem ocorrendo no campo do ensino de História, a partir de um diálogo mais próximo e fundamentado com a teoria e filosofia da História e que contemplem sistematizações de pesquisas e desafios à reflexão, a partir de eixos temáticos, como:

            - Estudos de caso que envolvam o trabalho com categorias e formação do pensamento histórico de jovens e crianças no âmbito da teoria da História.

            - Análises das relações e tensões entre cultura histórica e cultura escolar.

            - Análises acerca do problema da Didática da História na natureza e relação com a teoria e filosofia da História.

            - Estudos de caso acerca da história da historiografia do ensino de História.

            - Controvérsias a respeito do sentido e significado do ensino e aprendizagem da História.

            - Estudos sobre a formação da consciência histórica e os processos de escolarização.

             

            Segundo o estudo pioneiro Understanding and research, de Dickinson & Lee[1], envolvendo alunos dos 12 aos 18 anos, os investigadores interrogaram-se sobre o enquadramento teórico que deveria presidir à pesquisa sobre o pensamento histórico, questionando a lógica não histórica que serviu de base a pesquisas anteriores, bem como a noção piagetiana de invariância de estágios de desenvolvimento, pelo menos quando aplicada ao processo de compreensão histórica.[2]

            Assim, pode se acompanhar certa tradição das pesquisas que vêm sendo realizadas sobre pensamento histórico, consciência histórica e aprendizagem, observando-se uma revolução copernicana em direção aos referenciais da ciência da História, em detrimento, mas não de abandono, dos referenciais da psicologia e da pedagogia. Se antes, propunha-se um diálogo a partir da psicologia e da pedagogia, com os referenciais da ciência da História, agora  o processo foi invertido.

            A adoção de um novo paradigma para o ensino e aprendizagem da História inclui, portanto, novas problemáticas e novas abordagens de pesquisas no que se refere, principalmente, à análise dos processos, dos produtos e da natureza do ensino e aprendizagem histórica em diferentes sujeitos, bem como os significados e sentidos dados a estes processos, por exemplo, as investigações acerca da consciência histórica. Ademais, a perspectiva indica, fundamentalmente, a importância de se levar em conta uma séria reflexão sobre a natureza do conhecimento histórico e seu papel como ferramenta para análise da sociedade. Na esteira das investigações realizadas pelo historiador inglês Peter Lee, aprender História é apropriar-se de uma forma qualitativamente diferente de ver o mundo e isto envolve, entre outros elementos, a compreensão das "ideias-chave que tornam o conhecimento do passado possível, e dos diferentes tipos de reivindicações feitas pela História, incluindo o conhecimento de como podemos inferir e testar afirmações, explicar eventos e processos e fazer relatos do passado".[3] A preocupação com o desenvolvimento das ideias-chaves ou categorias do pensamento histórico, tais como: evidência, orientação temporal, empatia, relevância histórica, pluricausalidade, interpretação e narrativa, como orientadoras da metodologia do ensino de História está presente em investigações de autores de diferentes países.[4] Entende também que a finalidade do ensino de História é levar à população os conteúdos, temas, métodos, procedimentos e técnicas que o historiador utiliza para produzir o conhecimento histórico, ressalvando que não se trata de transformar todas as pessoas em historiadores, mas de ensinar a pensar historicamente.

             A obra do historiador alemão Jörn Rüsen sinalizou, por exemplo, a importância da categoria cultura histórica como referência para investigações e reflexões no âmbito do ensino de História. Segundo Rüsen, a cultura histórica é uma categoria de análise que permite compreender a produção e usos da história no espaço público na sociedade atual.[5] Trata-se de um fenômeno do qual fazem parte o grande boom da História, o sucesso que os debates acadêmicos têm tido fora do círculo de especialistas e a grande sensibilidade do público em face do uso de argumentos históricos para fins políticos e desse  processo fazem parte também os embates, enfrentamentos e aproximações entre a investigação acadêmica e o conhecimento histórico  escolar.  Assim, para o autor, a cultura histórica pode articular os diferentes elementos e estratégias da investigação acadêmica e da educação escolar e não escolar. 

            Tradicionalmente, o processo de construção do campo do ensino de História tem empurrado as questões do ensino e aprendizagem, tendencialmente, para o âmbito da cultura escolar, especialmente para as relações com determinadas teorias pedagógicas, como a pedagogia das competências. Foi a partir desse reajustamento que a dimensão cognitiva do ensino da História passou a se articular, por exemplo, com a dimensão política da cultura histórica. Nesse processo, as questões relacionadas à aprendizagem histórica e, portanto, ao seu ensino, saíram da pauta dos historiadores e entraram, prioritariamente, na pauta de pedagogos e psicólogos, bem como das políticas educacionais, ocorrendo um deslocamento entre a cultura histórica e a cultura escolar, em que a perspectiva instrumental, particularmente centralizada na preocupação com a transposição didática e com os métodos de ensino por competências e habilidades, tem sido privilegiada.

            Propõe-se que os trabalhos que constituirão o presente Dossiê apontem  diferentes questões a serem levadas em consideração no que se refere à aprendizagem das crianças e jovens. Entre elas a de que, definitivamente, os professores de história precisam saber que devem abandonar o pressuposto de que aprender história significa acumular conhecimentos, mesmo que adotando metodologias ativas e lúdicas e que aprender história não é manter-se no nível do senso comum ou adquirir bom senso a respeito das questões do passado. Ademais, possibilitem que se aponte elementos para sistematizações acerca de um novo paradigma da aprendizagem histórica e seu significado para a Didática da História, seu escopo teórico, natureza e dimensões.

            Em acordo com Rüsen[6], importa que a aprendizagem histórica desenvolva a capacidade de se adquirir a constituição narrativa de sentido, como uma aprendizagem de ressignificar, continuamente, as experiências temporais da vida prática, desenvolvendo, de forma complexa e científica, a cognição propriamente histórica. Concorda-se, também, com este autor, que se trata de um processo da consciência histórica e como ele é apreendido e efetivado, não é uma questão da didática da teoria da História, mas da Didática da História – uma disciplina da ciência da História, mas relativamente independente da teoria da História. Neste, e para este processo, sugere-se que se direcionam os artigos propostos no presente Dossiê, buscando atender uma necessidade que precisa ser articulada a um sentimento de urgência de se pensar para além dos embates herdados da separação entre o ensino de História e a História acadêmica.

----------

NOTAS:

[1] DICKINSON, A. & LEE, P. Understanding and research. In. DICKINSON, A. & LEE, P. History teaching and historical understanding. Londres: Heinemann, 1978, pp.94-120.

[2] BARCA, I. Ib. pág. 16.

[3] LEE, Peter. Literacia histórica e história transformativa. In. Educar em Revista. Curitiba: UFPR, n.60, abr.-jun. 2016, pp.107-145.

[4] Ver, p.ex.: LÉVESQUE, S. Thinking historically. Educating students for the Twenty-First Century. Toronto: University of Toronto Press, 2008; KÖRBER, A./MEYER-HAMMER, J. Historical Thinking, Competencies, and their Measurement: Challenges and Approaches. In. ERCIKAN,K./ SEIXAS, P. (eds.) New directions and Assessing Historical Thinking. Londres: Routledge, 2015, pp.89-101; SEIXAS, P./MORTON, T. The Big Six Historical Thinking Concepts. Toronto: Nelson, 2013.

[5] RÜSEN, J. Contribuições para uma teoria da Didática da História. Curitiba: W & A Editores, 2016.

[6] RÜSEN, J. Aprendizagem histórica. Fundamentos e paradigmas. Curitiba: W&A Editores, 2012.