Pintura de uma paisagem

Tempos históricos plurais: Braudel, Koselleck e o problema da escravidão negra nas Américas

Rafael de Bivar Marquese, Waldomiro Lourenço da Silva Júnior

Resumo


O artigo explora as interconexões entre as formulações de Fernand Braudel e Reinhart Koselleck a respeito do tempo histórico. Na primeira parte, após passarmos em revista os aspectos centrais do modelo braudeliano, procuramos demonstrar a forma como Koselleck se apropriou dele, renovando e radicalizando-o mediante um duplo procedimento de condensação e complexificação. Na segunda parte, por meio de um breve balanço historiográfico, exploramos as potencialidades da teorização braudel-koselleckiana no campo específico da escravidão negra nas Américas, expondo uma agenda de pesquisa renovada. 


Referência bibliográfica


AHR EXCHANGE. The Question of “Black Rice”. The American Historical Review, v. 115, n. 1, p. 123-171, 2010.
ALADRÉN, Gabriel. Liberdades negras nas paragens do sul: alforria e inserção social de libertos em Porto Alegre, 1800-1835. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
ALADRÉN, Gabriel. Bajo mi real protección y amparo: os decretos espanhóis de liberdade a escravos fugitivos e os conflitos imperiais no Atlântico, 1680-1791. Topoi, v. 18, n. 36, p. 514- 536, 2017.
ALONSO, Angela. Flores, votos e balas: o movimento abolicionista brasileiro (1868-1888). São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
ASSIS, Arthur Alfaix; MATA, Sérgio da. Prefácio: O conceito de história e o lugar dos Geschichtliche Grundbegriffe na história da história dos conceitos. In: ENGELS, Odilo; HORST, Günther; MEIER, Christian; KOSELLECK, Reinhart. O conceito de história. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 9-34.
BAPTIST, Edward E. The half has never been told. Slavery and the making of American capitalism. New York: Basic Books, 2014.
BARROSO, Daniel Souza; LAURINDO Jr., Luís Carlos. À margem da Segunda Escravidão? A dinâmica da escravidão no Vale Amazônico nos quadros da economia-mundo capitalista. Tempo, v. 23, n. 3, p. 568-588, 2017.
BECKERT, Sven. Empire of cotton. A global history. New York: Knopf, 2014.
BLACKBURN, Robin. The American crucible. Slavery, emancipation and human rights. London: Verso, 2011.
BRAUDEL, Fernand. História e Ciências Sociais: a Longa Duração. In: BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre a história. São Paulo: Perspectiva, 1978a [1958], p. 41-77.
BRAUDEL, Fernand. Sobre uma Concepção de História Social. In: BRAUDEL, Fernand. Escritos sobre a história. São Paulo: Perspectiva, 1978b [1959], p. 161-176.
BRAUDEL, Fernand. O mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. Volume 1. São Paulo: Edusp, 2016 [1949].
CARNEY, Judith; ROSOMOFF, Richard Nicholas. In the shadow of slavery. Africa’s botanical legacy in the atlantic world. Berkeley: University of California Press, 2009.
CARDOSO, Ciro Flamarion Santana. El Modo de Producción Esclavista Colonial En América. Cuadernos de Pasado y Presente, v. 12, n. 40, p. 193-242, 1973.
CARDOSO DE MELLO, João Manuel. O capitalismo tardio. Campinas: Edições Facamp, 2009 [1978].
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade. Uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CHALHOUB, Sidney. A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
COSTA, Emília Viotti da. Coroas de glória, lágrimas de sangue. A rebelião dos escravos de Demerara em 1823. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
COUPLAND, Reginald. The british anti-slavery movement. London: Frank Cass, 1964 [1933].
DAL LAGO, Enrico. American slavery, atlantic slavery, and beyond. The U.S. “peculiar institution” in international perspective. Boulder: Paradigm Publishers, 2012.
DAIX, Pierre. Fernand Braudel. Uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 1999.
DAVIS, David Brion. The problem of slavery in western culture. New York: Oxford University Press, 1988 [1966].
DAVIS, David Brion. The Problem of Slavery in the Age of Revolution, 1770-1823. Oxford: Oxford University Press, 1999 [1975].
DAVIS, David Brion. Slavery and Human Progress. Oxford: Oxford University Press, 1984.
DOSSE, François. A História em Migalhas. Dos Annales à Nova História. São Paulo: Ensaio-Ed.Unicamp, 1992.
DAVIS, David Brion. História do Estruturalismo. Volume 1. São Paulo: Ensaio-Ed.Unicamp, 1993.
DUTT, Carsten. História(s) e Teoria da história: entrevista com Reinhart Koselleck. História da Historiografia, n. 18, p. 311-324, 2015.
DRESCHER, Seymour. Econocide: British Slavery in the Era of Abolition. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1977.
DRESCHER, Seymour. Abolition. A History of Slavery and Antislavery. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.
DUBOIS, Laurent. Luzes escravizadas: repensando a história intelectual do Atlântico francês. Estudos Afro-asiáticos, v. 26, n. 2, p. 331-354, 2004.
ELEY, Geoff. A Crooked Line. From Cultural History to the History of Society. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 2005.
ELTIS, David. Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade. New York/Oxford: Oxford University Press, 1987.
FERRARO, Marcelo R. A arquitetura da escravidão nas cidades do café. Vassouras, século XIX. Dissertação (Mestrado em Ciências). Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade de São Paulo, 2017.
FERRER, Ada. Freedom’s Mirror. Cuba and Haiti in the age of revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.
FINLEY, Moses I. Escravidão antiga e ideologia moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1991.
FOGEL, Robert; ENGERMAN, Stanley. Time on the cross: the economics of American negro slavery. Boston: Little, Brown and Co., 1974.
FONTANA, Josep. História: análise do passado e projeto social. Bauru: Edusc, 1998.
FRADERA, Joseph; SCHMIDT-NOWARA, Christopher (Eds.). Slavery and antislavery in Spain’s Atlantic Empire. New York: Bergham Books, 2013.
FRAGOSO, João. Barões do café e sistema agrário escravista: Paraíba do Sul/Rio de Janeiro (1830- 1888). Rio de Janeiro: Faperj: 7 Letras, 2013.
FRANCASTEL, Pierre. A realidade figurativa. São Paulo: Perspectiva, 1993.
GENOVESE, Eugene. A economia política da escravidão. Rio de Janeiro: Pallas, 1976 [1965].
GENOVESE, Eugene. Roll, Jordan, roll: the world the slaves made. New York: Pantheon Books, 1974.
GODELIER, Maurice. The mental and the material. Thought, economy and society. Londres: Verso, 1986 [1984].
GORENDER, Jacob. O escravismo colonial. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2010 [1978].
GRINBERG, Keila. The two enslavements of Rufina: slavery and international relations on the southern border of nineteenth- century Brazil. The Hispanic American Historical Review, vol. 96, n. 3, p. 259-290, 2016.
GUEDES, Roberto. Egressos do cativeiro. Trabalho, família, aliança e mobilidade social (Porto Feliz, São Paulo, c.1798- 1850). Rio de Janeiro: Mauad X-Faperj, 2008.
GUTMAN, Herbert G. The black family in slavery and freedom, 1750-1925. New York: Pantheon Books, 1976
HEXTER, Jack. Fernand Braudel and the Monde Braudellien. The Journal of Modern History, v. 44, n. 4, p. 480-539, 1972.
HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções, 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1977 [1962].
IEGELSKI, Francine. A astronomia das constelações humanas. Reflexões sobre o pensamento de Claude Lévi- Strauss e a história. Tese (Doutorado em Ciências). Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade de São Paulo, 2012.
IGGERS, Georg G. The German conception of history. The national tradition of historical thought from herder to the present. Middletown, CN: Wesleyan University Press, 1983.
IGGERS, Georg G. Historiography in the twentieth century. From scientific objectivity to the postmodern challenge. Middletown, CN: Wesleyan University Press, 1997.
JAMES, C.L.R. Os jacobinos negros. Touissant l’ouverture e a revolução de São Domingos. São Paulo: Boitempo, 2000 [1938].
JASMIN, Marcelo. Apresentação. In: KOSELLECK, Reinhart Koselleck. Futuro passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC- RJ, 2006 [1979], p. 9-12.
JOHNSON, Walter. On Agency. Journal of Social History, v. 37, n. 1, p. 113-124, 2003.
JORDHEIM, Helge. Against Periodization: Koselleck’s Theory of Multiple Temporalities. History and Theory, n. 51, p. 151- 171, 2012.
KARP, Matthew. This vast southern empire. Slaveholders and the helm of American foreign policy. Cambridge, Ma.: Harvard University Press, 2016.
KOSELLECK, Reinhart. Crítica e crise. Uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora - UERJ, 1999 [1957].
KOSELLECK, Reinhart. The practice of conceptual history. Timing history, spacing concepts. Stanford: Stanford University Press, 2002.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-RJ, 2006 [1979].
KOSELLECK, Reinhart. Estratos do tempo. Estudos sobre a história. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-RJ, 2014 [2000].
LARA, Silvia Hunold. Campos da violência: escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808. São Paulo, SP: Paz e Terra, 1988.
LEFORT, Claude. Sociedade “sem história” e historicidade. In: LEFORT, Claud. As Formas da História. Ensaios de antropologia política. São Paulo: Brasiliense, 1979 [1952], p.37-56.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Le temps du mythe. Annales. Économies, Sociétés, Civilisations, v. 26, n. 3-4, p. 533-540, 1971.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropología estructural. Buenos Aires: Ed. Paidos, 1995 [1958].
MACHADO, Maria Helena P.T. O Plano e o pânico. Os movimentos sociais na década da abolição. São Paulo: Edusp- Ed.UFRJ, 1994.
MAMIGONIAN, Beatriz G. Africanos livres. A abolição do tráfico de escravos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MARQUES, Leonardo. The United States and the transatlantic slave trade to the Americas, 1776-1867. New Haven: Yale University Press, 2016.
MARQUESE, Rafael de Bivar. Capitalismo, escravidão e a economia cafeeira do Brasil no longo século XIX. Saeculum (UFPB), v. 29, p. 289-321, 2013.
MARQUESE, Rafael de Bivar; SALLES, Ricardo. (org.) Escravidão e capitalismo histórico no século XIX. Cuba, Brasil e Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
MARQUESE, Rafael de Bivar; PARRON, Tâmis; BERBEL, Márcia. Slavery and Politics. Brazil and Cuba, 1790- 1850. Albuquerque: University of New Mexico Press, 2016.
MELLO, Pedro Carvalho de; SLENES, Robert W. Análise econômica da escravidão no Brasil. In: NEUHAUS, Paulo (Org.). Economia brasileira: uma visão histórica. Rio de Janeiro: Campus, 1980, p. 89-122.
MOORE, Jason W. Ecology, Capital, and the Nature of Our Times: Accumulation and Crisis in the Capitalist World- Ecology. Journal of World-Systems Research, v. 17, n. 1, p. 108-147, 2011.
MORENO, Breno A. S. Demografia e trabalho escravo nas propriedades rurais cafeeiras de Bananal, 1830- 1860. Dissertação (Mestrado em Ciências). Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade de São Paulo, 2013.
MORENO FRAGINALS, Manuel. O Engenho: complexo socioeconômico açucareiro cubano. São Paulo: Hucitec- Unesp, 2 volumes, 1987 [1976].
MORERA, Esteve. Gramsci’s historicism. A realist interpretation. London: Routledge, 1990.
MUAZE, Mariana; SALLES, Ricardo (Orgs.). O Vale do Paraíba e o Império do Brasil nos quadros da Segunda Escravidão. Rio de Janeiro: 7 Letras-Faperj, 2015.
NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1979.
OLSEN, Niklas. History in the plural. An introduction to the work of Reinhart Koselleck. New York: Berghahn Books, 2012.
PALTI, Elias José. Introducción. In: KOSELLECK, Reinhart. Los estratos del tiempo: estudios sobre la historia. Barcelona: Paidós, 2001, p. 9-33.
PARRON, Tâmis Peixoto. A política da escravidão na era da liberdade: Estados Unidos, Brasil e Cuba, 1787-1846. Tese (Doutorado em Ciências). Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
PIQUERAS, José Antonio. La esclavitud en las Españas: un Lazo Transatlántico. Madrid: Catarata, 2011.
PIQUERAS, José Antonio. The Return to the Casa de Vivienda and the Barracón: The Terms of Social Action in Slave Plantations. In: TOMICH, Dale (Ed.). The politics of the Second Slavery. Albany: State University of New York Press, p. 83-111, 2016.
REIS, José Carlos. A temporalidade e seus críticos. In: LOPES, Marcos Antônio (org.). Fernand Braudel. Tempo & história. Rio de Janeiro: Edtora FGV, 2003, p. 111-122.
REIS, José Carlos. Tempo & História. Tempo Histórico, História do Pensamento Ocidental e Pensamento Brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012.
ROBERTS, Justin. Slavery and the enlightenment in the British Atlantic, 1750-1807. Cambridge: Cambridge University Press, 2013.
ROOD, Daniel B. The reinvention of atlantic slavery: technology, labor, race, and capitalism in the Greater Caribbean. Oxford: Oxford University Press, 2017.
SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo - Vassouras, século XIX. Senhores e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
SANTOS, Marco Aurélio dos. Geografia da escravidão no Vale do Paraíba cafeeiro. Bananal, 1850-1888. São Paulo: Alameda, 2016.
SANTOS, Ynaê Lopes dos. Irmãs do Atlântico. Escravidão e espaço urbano no Rio de Janeiro e Havana (1763-1844). Tese (Doutorado em Ciências). Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo / A Imaginação / Questão de Método. São Paulo: Abril Cultural, 1978 [1957].
SCHMIDT-NOWARA, Christopher. Slavery, freedom, and abolition in Latin America and the Atlantic World. Albuquerque: University of New Mexico Press, 2011.
SILVA JR., Waldomiro Lourenço da. História, direito e escravidão. A legislação escravista no antigo regime ibero- americano. São Paulo: Annablume, 2013.
SILVA JR., Waldomiro Lourenço da. Entre a escrita e a prática: direito e escravidão no Brasil e em Cuba, c.1760-1871. Tese (Doutorado em Ciências). Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
SMITH, Mark M. Mastered by the clock. Time, slavery, and freedom in the American South. Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1997.
SOUZA, Priscila de Lima. Sem que lhes obste a diferença de cor. A habilitação dos pardos livres no Brasil e no Caribe espanhol (1750-1808). Tese (Doutorado em Ciências). Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade de São Paulo, 2017.
STEPHEN, James. The slavery of the British West India colonies delineated: as it exists both in law and practice, and compared with the slavery of other countries, ancient and modern. London: J. Butterworth and Son, 1830.
TOMICH, Dale. Pelo prisma da escravidão. Trabalho, capital e a economia mundial. São Paulo: Edusp, 2011 [2004].
TOMICH, Dale. A escravidão no capitalismo histórico: rumo a uma história teórica. In: MARQUESE, Rafael de Bivar; SALLES, Ricardo Salles (Org.). Escravidão e capitalismo histórico no século XIX. Cuba, Brasil e Estados Unidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016, p. 55-97, 2016
WALLON, Henri Alexandre. Histoire de l’esclavage dans l’antiquité. Paris: Imp. Royale, 1847.
WILLIAMS, Eric. Capitalismo e escravidão. São Paulo: Companhia das Letras, 2012 [1944].
YOUSSEF, Alain El. Imprensa e escravidão. Política e tráfico negreiro no império do Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850). São Paulo: Intermeios, 2016.

Palavras-chave


Fernand Braudel; Historiografia sobre escravidão; Reinhart Koselleck

Texto completo:

44-81


DOI: https://doi.org/10.15848/hh.v11i28.1363

Desenvolvido por:

Logomarca da Lepidus Tecnologia